28 de abril de 2008

A esquina

Eu vivo em uma esquina. Entre a rua Ayala e a Montesa há um prédio antigo, com elevador apertado e escadas escuras. No quarto à direita, no segundo andar, também à direita, está meu pequeno povoado de personagens inconclusos. O que é habitar uma esquina? Entre os rios Negro e Solimões - isto é a vida de esquina. Olhar a vida desde esse ângulo às vezes me desespera: de onde sou? Se a porta do prédio está na Montesa, mas a janela do quarto abre para a Ayala, onde estou eu? A que povo pertenço?

7 comentários:

Pati Vieira disse...

Vou avisar a minha amiga Marana que tem uma impostora fazendo um blog com o nome dela e imitando o jeito dela de escrever.

Anahí Borges disse...

Ah... que bom que reencontrou a poesia perdida...
Beijão!

...em construção... disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Peroni disse...

O termo bovarismo, criado por Jules de Gaultier, designa um estado de alteraçao de sentido em que o paciente imagina possível ser um outro, alguém que nao é. É a doença do louco caricato, que imagina ser Napoleao Bonaparte.

Nao à toa, o termo deriva do romance de Flaubert. Madame Bovary imagina ser a protagonista de um dos romances que tanto lê.

Pois isso me incomodava em uma amiga minha que fez intercâmbio, depois que voltou ao Brasil. Dizia que tinha "um quê de européia", com uma ingenuidade e um romantismo de Madame Bovary.

Essa é minha bronca com um certo autor implícito que se pergunta "a que povo pertenço?" Nao que nosso autor implícito esteja "se achando" castelhano. A pergunta pressupoe que é possível, para ele, ser da Espanha, que é possível ser um outro, ser o que nao é. E, para mim, isso é tao absurdo quanto ser Napoleao. É ingenuo e romântico, é besta, é Madame Bovary.

Ao longo de minha vida, fiz uma lista de pessoas sensatas. Uma lista de pessoas acima de suspeita que devem me avisar quando eu estiver fazendo cagada. Por exemplo: vai que um dia eu viro professor e fico arrogante como um monte de gente que conhecemos? Pra isso tem a lista: eles me avisam e eu caio em mim. Antes de vir pra Europa, avisei a eles: se eu voltar bovarista, me avisem, me critiquem, nao tenham pena de mim.

Cai nessa nao.

camila jabur disse...

Bem vinda ao "clube da esquina". Penso que habitar a esquina - porta para um lado, janela para outro - é um privilégio de perspectivas! Enquanto lia pensava que, justamente, assim, se permanece fiel a um lugar de passagem, entre, todos-os-lugares, lugar-nenhum e ainda se pode oferecer passeios incríveis na casa-bicicleta, pedalando na rua sem fim do devir. Sei que há dores também...mas... enfim... Gosto de pensar que nem não somos, nem somos... estamos sendo. Simplesmente adoro suas dúvidas e quero visitar sempre a sua casa itinerante.
Saudades,
Camila.

Unknown disse...

MA?!?!!!?É VC?!?!!?!?!?!!?!?!!?!?!?!nAO ACREDITO!!!

Ju disse...

Discordo de Felipe. 1) Ele confundiu autor implícito e real e ainda deu liçao de moral, como quando Flaubert (que ele deve conhecer melhor que eu) foi acusado de defender o adultério em seu livro Madame Bovary. É como criticar Agatha Cristie por ser uma assassina. Roland Barthes, sobre a diferença entre o autor explícito/real e o implícito: "aquele que fala no relato nao é o mesmo que escreve na vida, e o que escreve nem sempre é o que é".
2) Se tivesse feito a devida diferença, Felipe até poderia criticar o autor implícito por uma pergunta tao ingênua quanto "a que povo pertenço?", mas uma leitura mais sensível nos mostra que ela ultrapassa a relaçao mais óbvia com a nacionalidade.